O lançamento do segundo álbum do
Booka Shade,
Movements, representou um salto quântico na carreira da dupla alemã. Produtores de longa data e co-fundadores da gravadora Get Physical, Arno e Walter saíram dos círculos de clubes underground para ganhar as rádios e o grande público com músicas como "Mandarine Girl" e "Body Language".
Dois anos depois - intervalo considerado ideal pelo mercado para o lançamento de um novo trabalho -, o Booka coloca nas lojas seu terceiro disco de estúdio,
The Sun and the Neon Light. Entre as missões da nova empreitada estão manter o duo no limite tênue que separa o desconhecido do mainstream e de quebra aliviar as insistentes associações com o electrohouse desse meio de década.
Para isso, o álbum ficou descontraído, menos soturno e ganhou vocais. Esse é um dos indicadores de que os alemães abraçaram mesmo a idéia de serem pop, ainda que sem largar totalmente o osso das canelas de clubbers mais tradicionais. O resultado é um
Olha a pinta

disco menos linear que
Movements, porém mais arejado e flexível. A homogeneidade dançante cedeu espaço para baladas românticas, como "Sweet Lies", e momentos de diversão sem compromisso como os ouvidos no electro-country de "Dusty Boots".
ELECTRO-RICE & BEANS"Charlotte" é uma das faixas que mais chama atenção - talvez pela egotrip que a introduz, ou por sua melodia e ritmo envolventes. Ela começa com uma vinheta em que Arno e Walter declaram sua fascinação pela música eletrônica e locutores anunciam o nome da dupla. Não chega a ofender, mas a auto-referência causa um estranhamente passageiro, logo substituído pelo clima animado do momento mais pop do álbum.
A superficialidade dos temas, característica marcante em
Movements, é repetida aqui. Os nomes das faixas não dizem muita coisa, como de praxe em discos dançantes, e os vocais não carregam mensagens dignas de nota. Mas sem a prerrogativa de ser um álbum exclusivo para dançar - fato que serviu de álibi em 2006 -, a aridez temática agora incomoda (que diabos é um Psychameleon, fora o trocadilho morno repetido com insistência na 11º faixa, por exemplo?).
Sun & Neon Light é prova de que Arno e Walter são melhores como construtores de melodias que como agentes do pop. Exemplos dessa perícia estão em "Karma Car" e em "Solo City" - dois momentos do álbum em que a dupla convence apenas com algumas linhas de sintetizador bem atraentes, sem a necessidade de apelar para arranjos explosivos ou mirabolantes.
Ainda que em nenhum momento haja verdadeiras inovações, o Booka Shade mostra que ainda se dá muito bem enquanto serve seu arroz com feijão. E quando o assunto é colocar para dançar com sutileza e em baixa velocidade, Arno e Walter podem não dar um show de novidades, mas ainda o fazem de maneira única; cheia de trocadilhos e de competência.
ps: olha a pinta, huahuauhauhahuauh!