"Tem um Pudim na sua Prada, honey". Individualismo, moda, liberalismo e uma enxurrada de crises são os dogmas da mulher neo-moderna
Samantha volta às ombreiras. E suas comparsas entonam um floral

Depois do relativismo, tudo pode ser tudo. O pós-modernismo trouxe a benesse da dúvida e, junto com essa avalanche, o quase-nada. A nova fase das libertinas garotas de
Sex And the City, o filme, começa no vocabulário. Da linguagem despudorada, aquela que faz a gente qualificar de orgasmático o que produz orgasmos; fez-se lugar para metáforas virtuosas. Pintar, por exemplo, passou a denotar troca de fluidos impulsionados pela libido. Em miúdos, se a sua vida sentimental é - para usar um atenuante - cheia de diversidade, você é um grande pintor. Quanto mais bofes, mais lápis. Se o seu pinta fora da linha, ele é ousado, moderno, arrojado. E esse é o espírito.
Com um liberalismo rasgado, mesmo que entremeados por risinhos tímidos de moçoilas
yuppies tendo que ir à luta na era do controle, elas vieram bem-sucedidas, determinadas e levantaram a bandeira que atestaram o seu sucesso: gozaram em nome de todas as que não gozam. Colocaram-se acima de tudo e concluíram, acreditem, que existem três tipos de homem: os bonzinhos que demoram, mas acabam te fodendo; os que são maus e te fodem sem pudores, e os, enfim, que não sabem foder. Apesar disso, as cinco ficam de galho-em-galho, submetendo-se a humilhações sistemáticas, travestindo seu romantismo em uma libertinagem cheia de glamour. Elas vão de Louis Vuitton, esperam com Cosmopolitan; as expectativas, no entanto, são quase as mesmas.
MÚSICA PARA ATENUAR
A trilha, assim como a atriz ex-American Idol Jennifer Hudson, que levou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação no filme Dreamgirls, é a assistente de Carrie no filme e canta a faixa-tema do filme All Dressed Love, tem o propósito de aproximar o roteiro da realidade dos nova-iorquinos, apesar do estilo de vida pra lá de caro de suas protagonistas. De apelo soul e hip hop, a trilha do filme tem a queridinha britânica Duffy (cantora da pegajosa Mercy), Joss Stone, India, clássicos de Nina Simone e Fergie na canção de abertura. A aproximação deu certo e a coletânea, em sua primeira semana de lançamento nos EUA, esgotou. Aqui no Brasil já ficou entre as mais vendidas, antes mesmo do filme ser lançado.
Quando encontram "o cara", tudo entra em derrocada. É preciso sentir, não racionalizar, para citar Carrie. O filme segue por essa linha. Vem com bem menos crises existenciais e mais glamour. Um guarda-roupa de 300 modelos - 80 só para a protagonista-narradora transformada em ícone fashion por Patrícia Field- é o motivo para os shortcuts. Os diálogos também vêm curtíssimos, sem nem um discursinho dialético pra dar aquele frisson nas "mexicomas". As piadinhas virtuosas que arrancaram risos espontâneos dos presentes, porém, fazem valer. Mas nada muito inteligente. Nada que quem usa Louis Vuitton alugada não entenderia.
Nem tudo é finesse. Mesmo com a calmaria, o passado é um espectro sempre presente. Elas andaram de festa em festa. Carrie, na série, chegou a fazer um aborto depois de uma trepada na
Baloon, boate que freqüentava religiosamente nos anos 80. A romântica Charllote marcou dois encontros na mesma noite. Samantha, a maníaca, até se aventurou pelo lesbianismo e transou com dois amigos gays. E Miranda, a advogada formada em Harvard, apelou para o sexo pret-à-porter: já disse trabalhar em um navio para alimentar a fantasia masculina, conseguir se livrar da "tensão acumulada" e, assim, começar uma segunda-feira menos travada e mais cintilante.
GERAÇÕES ÀS AVESSASEnquanto Carrie tenta transformar os 20 anos de seu apartamento em 38 caixas, as tentações de outrora também ficaram para trás. E se faz o que talvez seja a crise dos 40 ao revés. As antigas gerações fechavam a vida aos 20, com a tríade filho-árvore-livro; para depois, pegados pelo modernismo na metade do caminho, chegarem com a onda "jovem", fazendo a loca. Elas não. Prolongaram por demais as festas, arrasaram no
after, e não souberam a hora de voltar pra casa.
Veio aquela coisa, talvez enjôo, ou mais uma vontade de mudar do que um repentino desejo de ser convencional. E a nossa geração, que ainda não sabe o que é a tranqüilidade sem voltar aos antigos moldes, faz tudo ao contrário. Fora do seu tempo, e com muito drama, elas tentam recuperar o passado de suas mães e fazer toda uma vida que poderia ter sido
Big, Carrie e Viviene Westwood

e não foi. Mas o fantasma do liberalismo, daquele lado de lá que faz o sapato ficar atolado na cagação (mais conhecido como caminho-sem-volta), persiste.
O individualismo é um princípio. Com o benefício da dúvida, toda decisão é um sussurro, quase-sim; quase-não. É Nova York. Tem sempre um modelo novo. Uma nova festa. Gente bonita. Um clima de paquera. E quando se tem um bom Cosmopolitan para deixar toda essa abstração mais impulsiva, a linha do tempo perde a sua função limítrofe.
Nossa, com essa descrição ficou até asspético, mas ainda assim a metáfora funciona.