Martina Topley-Bird - Quixotic
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ficha técnica
Nota: 4.5 / 5
Ano: 2003
Selo: Independiente Records
Estilos: trip hop, eletrônica, rock
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Martina Topley-Bird - Quixotic
Voz ícone da década de 90, disco autoral revela de Martina seu mais bem guardado tesouro
16.06.08 13:30
São muitas as possibilidades de se gostar de Martina Topley-Bird e seu primeiro disco, Quixotic. Lançado em 2003 apenas na Europa, e com posterior relançamento nos EUA, o trabalho marca a estréia solo da cantora - estréia entre aspas, é bom dizer: Martina já é velha conhecida do povo que curte quebradas mais tranqüilas da música eletrônica - normalmente designadas trip-hop ou downtempo. Parceira do produtor musical Tricky - um dissidente do Massive Attack -, participou de seus discos entre 1996 e 1999, e sua contribuição foi fundamental para fazer deles verdadeiras jóias da década. Com seu canto, ajudou a instituir, na época, as bases do que seria reconhecido como o som de Bristol - percussão grave, vocais suaves. Em sua colaboração com Tricky, uniu as batidas do hip-hop à uma sonoridade por vezes mais crua e direta. Numa espécie de pós-punk made in 90s, promoveu uma curiosa síntese do que seria um provável encontro entre bandas cults dos 80 - não à toa, Martina chegou a fazer uma cover do Public Enemy, além de gravar outra canção ao lado de Terry Hall, a voz de um dos mais famosos grupos de ska do período, o The Specials.

AS MULHERES DE TRICKY
Qualquer um que se atreva a recontar a história musical da década de 90 certamente vai esbarrar em Tricky, caso pretenda dar conta do que de mais inventivo surgiu no período. Egresso do Massive Attack, o rapper britânico sempre arregimentou colaboradores de alto quilate - de Björk a Neneh Cherry, passando por Terry Hall e Whale, até escolhas pops Anthony Kiedis e Cindy Lauper. Tricky transitou com mais ou menos desenvoltura entre o punk, o rock e a black music - do soul ao hip-hop. Em seu caldeirão sonoro, suas bases normalmente surgem cruas e melancólicas, em sombrio percurso pela dor e o sofrimento. Foi casado com Martina Topley-Bird, e juntos são responsáveis por êxitos marcantes do período - Maxinquaye, Nearly God e Pre-Millennium Tension, discos de 1995/1996, contribuiram para definir um estilo musical e são verdadeiras obras-primas da música pop até hoje. Seu novo disco, Knowle West Boy, tem lançamento previsto para julho.
Inventividade sempre foi uma marca de Martina. Cantora de primeira grandeza, dotada de extrema sensualidade, sua prosódia particular a coloca anos-luz de distância de uma série de outras intérpretes da atualidade. Seu canto ora arrastado, ora leve, ou mesmo irascível, recorre a um procedimento semelhante ao jump cut no cinema, no qual o recorte elíptico de sua voz favorece a interiorização e a subjetividade do ouvinte. Ao longo das 13 faixas de Quixotic - a maioria produzidas e escritas por ela, com participações do quilate de David Holmes e, claro, Tricky -, o ouvinte é convidado a participar ativamente, através de uma cuidadosa inspeção dos sentidos. Assim, sua música surge muito táctil e calorosa para quem está acompanhado ou mesmo bastante visual para quem a segue sozinho. Para além dos meandros hipnóticos de seu canto, reside na vibração musical de Martina a transmissão de alguma sensação vital por meio de sua voz, o que potencializa os sentidos da experiência propiciada pelo contato com seu trabalho.

Em Quixotic, Martina Toply-Bird eleva a música a toda sua grandeza, colocando-a em um lugar livre de redundâncias. Existe o som, e sua música é. Tendo por tema primordial das canções as constatações sobre as aproximações, em seus sucessos e fracassos, colocar Martina para tocar é sempre um convite a visitar perigosas fronteiras do afeto e do viver. Como um preciso comentário sobre as relações, sua voz surge forte enquanto parece sempre estar prestes a desaparecer. Com delicadeza, pessoalidade e ironia, ela reivindica seu espaço no emaranhado sonoro que cada um traz consigo.

PÉROLA
A pedra de toque de Quixotic são seus arranjos. Funcionam como a água em que a voz de Martina flui firme e precisa. Em sua variedade e refinamento, o ouvinte pode constatar o cuidadoso trabalho musical do álbum - indicado para o influente Mercury Prize -, que conta também com a breve, mas valiosa colaboração de Mark Lanegan (ex-vocalista da banda Screeming Trees) e Josh Homme (do Kyuss e do Queens of The Stone Age). São músicas tão melódicas quanto surpreendentes - as escolhas são sempre as menos óbvias.

Após a singela canção de abertura, de pés fincados nas raízes da black music com um blues low-fi de curta duração, Martina avança com "Need One", uma poderosa canção tributária ao melhor que o rock setentista já fez, e sem nenhum ranço saudosista - mais que nunca, neste disco, a tradição de Martina é a contemporaneidade. "Too Tough To Die", "Soulfood" e "Lying", cada uma com suas diferenças de propósitos e andamentos, vêm impregnadas de batidas graves, um preguiçoso swing soul - no caso das duas últimas -, e um vigoroso grave no caso da primeira, talvez a mais dançante do disco, acompanhada de uma letra e sample incisivos, em que Martina afirma ser "too tough to die", não sem antes perguntar "What's to hold it together when you stumble/And you fall".

As letras, cruas, diretas e reflexivas, dão conta de evidenciar o acentuado sotaque britânico de seu canto e sua angulosa pronúncia, vertida em fragmentos de fala, um deleite para os fãs do idioma. Uma das canções mais singulares do disco é "Lullaby" - com direito até a falsete, piano e slides de violão, tudo preguiçoso e esparso, além de barulhinhos eletrônicos e efeitos na voz, verdadeiros tesouros dispostos no meio da música. Nela, Martina convida seu interlocutor a tomar um vinho próximo a lareira, e então recorre a uma metáfora visual sobre contos de fadas, ostras e pérolas, para repetir, sucessiva e lânguida, ao final: "Oyster pearl/You never care to look inside". Sensualidade lapidada em primeira pessoa.

Sem medo de comparações com sua carreira pregressa, Martina encara o trip-hop de frente em quatro momentos do disco. "Anything", "Ilya", "Sandpaper Kisses" e "Stevie's (Day's Of a Gun)" são de deixar qualquer fã do gênero mais do que satisfeito. As composições vêm com sua marca autoral bem definida: ao contrário da dureza e aridez de Tricky - e é bem verdade que ele participa da produção e da programação musical de algumas, além de estar presente em viva voz em outra, "Ragga" -, as canções surgem muito mais emotivas, com direito até a seção de cordas arranjadas por David Arnold, ás do meio. Tudo converge rumo à introspecção e ao questionamento afetivo. Se em "Sandpaper Kisses" o ouvinte é surpreendido pelas texturas sombrias e acordes ligados ao folk japonês - a música, por sinal, serviu de trilha para o game Fahrenheit, do Playstation 2 -, em "Ilya" ela entoa sem pudores: "Cut you in half/See how you feel without/I want you to live/But you dont know how. Am I gone?", para então concluir "You know were wrong together". O final do disco surge conectado à dor, e Martina canta um amor velado, incapacitado de se expressar. Para todos que sofrem ensimesmados, ela pergunta, afinal: "How do you stay a lover inside?"



"THE BLUE GOD" - DISCO NOVO
Em maio de 2008, após um hiato de cinco anos, saiu finalmente o novo disco de Martina Topley-Bird. Nomeado The Blue God, conta com a produção de Brian Danger Mouse - metade do Gnarls Barkley - e já ganhou remix dos festejados Van She para o single Poison - uma das melhores faixas do álbum.

Ocorre que Martina optou por não participar da produção, além de ter gravado o disco na costa oeste dos Estados Unidos. O resultado é uma coleção de canções menos versáteis em seus encantos - Quixotic soa mais precioso em seu intento de conduzir o ouvinte ao encontro de si mesmo e suas emoções, mesmo quando isso eventualmente ocorre de forma diluída, como na faixa "I Still Feel". The Blue God parece cindido em duas essências bem distintas: a da extensão ante as possibilidades especulativas da voz de Martina e o apelo imediato da produção de Mouse - ainda assim, em diálogo direto com a soul sessentista, rende momentos inspirados. Foi, no entanto, só depois de anos de parceria com Tricky que Martina nos brindou com o seu mais secreto tesouro. Inquieta e profunda, quixotesca.

Flávio Aquistapace
Flávio Aquistapace (brunomantegao @ gmail.com)
comentários
nin
nin (16.06.08)
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Resenha muito bem escrita! Adorei!
Rodrigo
Rodrigo (16.06.08)
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não ouvi, já amei (preconceito)
Augustuzs Neto
Augustuzs Neto (16.06.08)
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Tricky só pega coisa boa, vou checar a Martina.
Raul Cornejo
Raul Cornejo (16.06.08)
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Merece nota o fato de que, entre as mulheres com quem o Tricky colaborou, também se conta a hoje tão bucólica Alison Goldfrapp.