Produtor de Detroit lança é a nova sensação das leituras deep do minimal e do techno
Na música eletrônica é difícil agradar a todos. Mesmo quando você só quer
divertir, fazer graça e fazer dançar, vem chumbo de um lado. Pior ainda quando você tenta sobreviver fluindo bem entre o techno purista, o house exigente e o minimal insistente. A solução para se sair bem nesse tiroteio de BPMs e cenas é a versatilidade, mantra que a gente ainda não cansou de repetir. Tem um americano que mostrou ser mais uma síntese 4x4 disso ao fazer bastante barulho por aí com seu primeiro álbum: é Todd Osborn, DJ, músico e produtor de Detroit que assina como Osborne, e é tema do
RADAR dessa semana.
Todd não é novidade, na verdade, uma de suas várias facetas é Soundmurderer, expoente do drum'n'bass e dos breaks em Detroit - seu trabalho a frente da loja Dubplate Pressure é um ícone local do dnb na cidade, currículo bem amarrado ainda com o selo Rewind Records e lançamentos do projeto na Rephlex, de
Richard D. James.

Mas é desde 2001 que Todd colocou um "e" no seu sobrenome e começou a produzir 4x4 e outras miscelâneas classudas como Osborne, uma fusão perfeita entre o som de Detroit e de Chicago, além de um approach nos últimos anos com o minimal deep e os beats tribais (seu hit "Afrika" é de 2004, muito antes da modinha étnica que nos assola hoje). Em maio ele lançou o álbum homônimo
Osborne, uma compilação de 16 faixas inéditas e outras retiradas de antigos EPs.
O ÁLBUMLançado pela Spectral Sound/Ghostly International, local de techno e house de aspirações pop (Matthew Dear e seu
Asa Breed vêm de lá), o disco é uma preciosidade para quem acredita que a salvação do minimal é o clima deep, e para quem entende que o house só continuará sendo um
feeling se for equalizado para as sonoridades e técnicas de hoje.

"Algumas faixas eu já comecei a compor em 2001, outras eu lancei antes como 12", não tive a intenção de criar um LP, então ele saiu descompromissado. Sempre toquei diferentes bits e o disco é uma seleção disso."
A unidade do disco se dá em dois pólos: o loop acid latente e a atmosfera "morna" (
warm, do inglês, definiria melhor), que engloba os synths e teclados melódicos de faixas épicas. As referências são maduras, polidas, bem longe de qualquer possibilidade prog - versatilidade tem limite. "Rulling" é o primeiro single e tem aquele clima deep do saudoso
house fino (teclado + vocal + beat macio + palminhas abafadas). Porque todo hedonismo desce melhor com classe.
Flash Content
Osborne - Ruling (mp3)
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Osborne - Afrika (mp3)
O álbum é uma coletânea, mas em uníssono é uma história de, como ele mesmo diz, diferentes beats, todas soando como Osborne, é um músico e não um produtor inserido numa cena. Sobre referências, ele mesmo diz. "Eu gosto de funk antigo e disco. Principalmente porque eram gêneros com muito mais elementos humanos, tocados mesmo, dentro da música dançante". O groove é outro elemento de importância para o americano: "é daí que tiro o groove, ele é até matemático demais na minha música, e isso é algo que eu gostaria de mudar."
A ESTÉTICA DE OSBORNE
Osborne é famoso também por criar dance music com uma variedade quase mambembe de instrumentos: rádios, equalizadores, seqüenciadores antigos, synths, computadores e softwares antigos. Não se trata de um
Dan Deacon do techno, já que nem o analógico como o digital são uma preferência clara. "Eu costumo usar máquinas antigas (RZ-1, 303, 101, 606, OBX), mas quase tudo eu acabo arranjando no computador. O principal software que eu uso é um antigo programa ‘tracker', de 1996 eu acho". E como é audível no álbum
Osborne, pianos e teclados são destaque na hora de Todd Osborn compor. "Eu sei tocar piano, mas não sei ler partituras. Geralmente eu faço a melodia primeiro, aí quando ela fica boa eu decido o quão rápido o BPM será". O fator humano parece ser tão importante para Osborne que uma faixa como a delicada "Suffer" (mais inorgânica, só que não menos delicada), acaba sendo desprezadas pelo próprio autor. "Essa música é só um interlúdio, fiquei cansado dela, repetitiva demais."
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Osborne - Suffer (mp3)
Osborne hoje toca tanto sets de seis horas no Berghain (Berlim) como lives do Soundmurderer no
DEMF (Detroit), festival que, já faz alguns anos, percebeu a necessidade de variar a sonoridade do line-up. E o mais paradoxal (e sintomático dos nossos tempos) é como a reunião de antigos e novos releases do artista num CD ainda tem o poder de catapultar uma carreira. A distância de um discreto bom produtor a músico conceituado com álbum elogiado é a prensa da Spectral Sound. De modo que essa engrenagem da indústria fonográfica é simples na teoria, mas impraticável se não há talento. "Eu tive tantos reviews positivos que isso me inspira a fazer mais música, principalmente porque eu sei que posso fazer canções muito melhores". Assim seja.