Trinta anos misturando música eletrônica e poesia de protesto
22.07.08 13:20
O trabalho da artista inglesa Anne Clark é um dos mais interessantes da cultura underground dos últimos anos. Misturando música eletrônica à poesia de protesto e ao chamado spoken word, sua carreira já se espalha por trinta anos, sem qualquer hype ou apoio da mídia musical - chegando até mesmo a produzir vários clássicos das pistas, como "Sleeper in Metropolis" e "Our Darkness".
Anne começou sua carreira no final dos anos 70, fortemente envolvida na efervescente cena punk que surgia na Inglaterra na época. Seu primeiro álbum The Sitting Room foi lançado em 1982 e já demonstrava toda a gama de influências de Anne.
"Eu sempre gostei de música de todos os tipos, desde os tempos de criança. E também adorava os livros, estórias, poesia, pinturas... E não foram somente artistas que me influenciaram. O mundo ao meu redor e minhas experiências na vida são tão influentes quanto. Para citar alguns: David Bowie, Tim Buckley, Kraftwerk, Tangerine Dream, Donna Summer, Roxy Music, Brian Eno, The Sensational Alex Harvey Band, Cockney Rebel, Nico, Lou Reed, punk, new wave, world music e folk, Chopin, música antiga, Bach, o movimento pré-rafaelita, Samuel Palmer, Christina Rossetti, Edgar Allan Poe... a lista vai embora!"
Às vésperas de lançar um novo álbum (seu primeiro trabalho inédito em estúdio em 12 anos), Anne conversou com o rraurl sobre literatura, música eletrônica e Brasil.
Quais seus assuntos preferidos para escrever atualmente?
Bem, isso depende. Assim como minhas influências, os meus temas preferidos para escrever são bastante variados. Acho que eu escrevo de uma forma que é facilmente reconhecível mas espero também dar espaço para que o leitor/ouvinte possa interpretar tudo de sua própria forma, fazendo relações com suas próprias experiências.
Minha raiva e frustração com a inabilidade que temos de poder mudar as coisas horríveis que acontecem no mundo hoje são enormes. Eu preciso tomar muito cuidado com isso. Algumas vezes sinto que vai tomar conta de mim! Então eu busco conforto e esperança nos mais ínfimos detalhes, observações, experiências. É daí que o título do meu novo álbum The Smallest Acts Of Kindness (os menores atos de bondade) vem. Assuntos? - vida, amor, o universo e tudo junto!
Você já foi chamada de uma artista do cenário "spoken word". Essa é uma boa forma de descrever seu trabalho?
Creio que uma hora todos temos que ser categorizados de alguma forma, não? O que seria do mundo sem as categorias, eu me pergunto! Mas tudo bem... Eu acho que as pessoas pelo menos tentaram descrever meu trabalho de alguma forma. Acho que seria falso dizer que sou uma cantora - isso com certeza, apesar de algumas vezes eu ter feito coisas que eram bem próximas de um canto. Mas cantar mesmo nunca foi minha intenção. A linguagem e as palavras são minha prioridade e eu sou consciente das minhas limitações como cantora. Apesar de existirem muitas canções com letras poeticamente belas por ai, elas acabam sendo prejudicadas para poder harmonizar com a estrutura da música.
O que eu faço é bastante único, de alguma forma. Um dos comentários mais importantes que já recebi foi de um grupo de rappers negros em Chicago por volta de 1986, que me chamaram de "sister" pois eu estava fazendo algo que era uma progressão natural do grupo de poetas afro-americanos The Last Poets... Isso foi muito especial!"
Você ficou surpresa ao ver faixas como "Sleeper in Metropolis" e "Our Darkness" se tornando grandes hits nas pistas em todo o mundo? Elas ainda hoje são muito tocadas...
"Sim, e muito!! Quer dizer, eu sabia que quando David Harrow e eu nos sentamos para gravar estas faixas, nós tínhamos feito algo de especial, mas éramos apenas dois punks londrinos fazendo nosso trabalho, apenas sobrevivendo. Quando o álbum saiu a gravadora nos disse que tínhamos que sair em turnê pois as faixas estavam nas paradas e sendo tocadas em todos os lugares.... Eu fiquei boba! Mas eu sempre me mantive atenta com os outros elementos do meu trabalho. Eles são igualmente importantes para mim.
The Smallest Acts Of Kindness, que será lançado em setembro, é seu primeiro trabalho em estúdio em muitos anos. Como você vê as mudanças em você como artista, olhando desde os tempos de The Sitting Room, seu primeiro álbum?
Mais importante que tudo, acredito ter sido extremamente sortuda de conseguir manter uma carreira por quase 30 (!!) anos até agora. Isso é muito tempo, ainda mais no meio musical! Houveram muitos momentos em que fui roubada e tive que me afastar. Nunca tive muito apoio da indústria musical em si, então tive que ter muita auto-confiança no meu trabalho. Se eu não tivesse conhecido Jeff Aug e Michi Schoentmetzer no começo deste milênio eu provavelmente já teria abandonado tudo!!
Acho que minha resposta a esta questão está ligada a sua primeira pergunta. Obviamente eu passei por muitas experiências e espero que elas tenham me ajudado a ficar mais madura e como eu disse, achar o tipo de paz que eu procurava por toda minha vida. Eu ainda fico com raiva, furiosa, frustrada... mas acho que agora eu consigo extravazar estas emoções em diversas formas.
A música sempre foi meu refúgio e sempre será. É muito importante para mim que meu público reconheça uma coisa - o tempo que levei entre um álbum e outro foi o tempo que experimentei com coisas diferentes. O importante para mim é tentar criar sempre idéias novas enquanto mantenho minha essência.
Você lançou muito material acústico também.Você se sente mais confortável na eletrônica, no acústico ou em ambos?
Ambas. Todas tem sua própria dinâmica especial. Todas expressam algo. Eu adoro combiná-las. Eu adoro enlouquecer com os instrumentos acústicos algumas vezes, e outras usar a eletrônica de uma forma sutil. As possibilidades são infinitas para ambas.
Como é seu processo criativo?
Como a música em si - as possibilidades são infinitas. Por costume eu escrevo primeiro dando ênfase nas palavras. O pessoal que escreve comigo é tão incrível que geralmente eles conseguem fazer algo com tudo o que eu jogo pra eles! Se eles me dão uma melodia antes, então eu tento escrever algo que combine com ela. É aí que o verdadeiro prazer de escrever letras está. É como cozinhar com diversos ingredientes; texturas, sabores, aromas!
Qual sua relação com a Internet e as novas ferramentas de divulgação como blogs de MP3, MySpace, etc?
Como você pode ver - - a internet é uma ferramente incrível! É ótima para todo mundo. Eu escrevo muito do meu material pela internet!
Apesar disso, não é tão simples. A tecnologia em si é algo neutro no meu ponto de vista. Somos nós humanos que precisamos transformá-la em algo. Estamos vivendo numa era tão tecnológica num ritmo tão acelerado. Isso pode ser a base para várias coisas ruins também.
Além disso eu sou extremamente impaciente com a tecnologia. Não quero ter que ficar 90% do meu tempo em frente a um computador. Existe um mundo maravilhoso lá fora e nós estamos perdendo o contato com ele cada vez mais. Eu não quero isso. Como tudo, eu acho que é uma questão de balanço.
Você já pensou em se apresentar no Brasil?
Você não tem idéia do quanto eu adoraria ir pro Brasil!!! Tenho tentado isso desde 1984 quando recebi pela primeira vez um convite para me apresentar aí. Tenho certeza que seria genial! Eu tenho um guitarrista brasileiro na minha banda, sabia? Alias vários amigos portugueses e brasileiros já me apresentaram muita música boa daí.
"Abuse" - Anne Clark @ Hof/Rockwerk (2007)
Quais seus planos futuros?
Estou começando a juntar idéias para um novo livro de textos e fotografias. O álbum novo sai em setembro. Então vou dar início a uma grande turnê européia. Será que vamos pro Brasil ano que vem??!!
------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- O novo vídeo de Anne Clark pode ser assistido aqui. As datas da atual turnê de Anne podem ser conferidas no mesmo site.
Alisson Göthz live from vlad dracul's castle, romania