Sem inéditas há cinco anos, disco novo traz Tricky de volta à boa forma
22.07.08 14:05
Nas retrospectivas do final de ano um capítulo especial será dedicado a recontar uma particularidade de 2008. Uma série de bandas até então afastadas dos holofotes ou mesmo que já tinham suas atividades dadas por encerradas voltaram à ativa. De Portishead ao Jesus and Mary Chain, de My Bloody Valentine às Breeders, e agora ele, Tricky, o arauto da inventividade dos anos 90.
Para quem não lembra, Tricky surgiu com o Massive Attack no começo da década passada, coletivo em que contribui nos dois primeiros discos, Blue Lines e Protection. Em 1995 lança seu aclamado primeiro disco solo,Maxinquaye. Ousado, o álbum reuniu colaboradores e inspirações e, com uma singular recombinação dos ritmos do período que originaram o pós-punk britânico, Tricky adere à música eletrônica em voga na época e colabora para a compreensão do que viria a ser chamado de Trip-Hop. Muitos graves somados às bases do rap, reggae e ska; interferências eletrônicas que tornam o som mais caótico, sujo e denso, além da preciosa colaboração de Martina Topley-Bird, um poderoso contraponto à aridez sonora. Com letras confessionais e melancólicas, os dois discos seguintes, Nearly God e Pre-Millenium Tension aprofundariam a experiência com a participação de Neneh Cherry, Björk, Alison Moyet, entre outros.
RAPAZ DO OESTE Tricky volta agora após cinco anos com Knowle West Boy, que traz, já no título, uma referência ao lugar de infância do rapper. Bom lembrar que tudo em Tricky é e não é: ele pode ser entendido como um rapper, desde que não na acepção mais estereotipada do gênero. Sua voz não é propriamente a de um cantor, embora ele cante bem, e sua participação não se restringe tão somente à produção, como talvez coubesse a um artista-propositor responsável por reunir colaboradores e dar as coordenadas da execução.
No começo, antes da internet, ouvintes confundiam Tricky com Martina ao ouvir a voz dela e ver a imagem dele na capa de discos. Masculino e feminino, a forma fragmentária e muitas vezes amorfa de suas músicas fala de possibilidades. A liberdade de invenção é um traço distintivo deste artista, mesmo que para isso tenha que recorrer a uma certa dispersão, algo nítido no seu disco atual. Está tudo lá, mas com tonalidades diferentes. Das linhas de baixo, das fagulhas de repetição e interrupções na estrutura mais linear de uma canção, os vocais femininos, as guitarras sujas, além das pitadas de jazz e ragga.
Novidade mesmo é um namoro muito reticente com o grime e o dubstep - vindo dele, realmente esperava-se mais entusiasmo perante ritmos atuais a ver com o seu vocabulário particular. Como uma correção de rota, o disco aponta para uma vitalidade que há muito não se via em sua carreira - talvez desde Juxtapose, lançado em 1999. O disco corre vivaz, e a interpretação irascível de "Council Estate", o primeiro single, dá a pista do quão vibrante seu som ainda pode ser. Por outro lado, é evidente certo anacronismo em canções que poderiam perfeitamente ter sido lançadas como algo muito cool lá na década de 90 - "Past Mistake", por exemplo, é um trip-hop como há muito não se ouvia. Ao mesmo tempo em que busca novas soluções, parece que a década passada ainda não acabou para Tricky, o que nos conduz a perguntar: quem é o seu ouvinte hoje?
Tricky - Council Estate
SOMBRA SINISTRA, POP CAFAJESTE Assim é que o maior trunfo de suas canções torna-se também sua sombra mais sinistra - o que de certa forma vai muito bem para Tricky, talvez daí a força, e também o lance deste disco. O funky de "C'mon Baby", levado por guitarras, ou mesmo "Slow", cover de Killie Minogue - Tricky adora covers, outra afirmação particular de que tudo está aí para ser reinventado, remexido, revisto. Não há cerimônia em fazer seu o que está no mundo para ser curtido -,
O PÓS-PUNK Musicalmente influente para diversas bandas surgidas nesta década (Franz Ferdinand, Interpol, Yeah Yeah Yeahs e Bloc Party, por exemplo) -, o pós-punk tem origem na Inglaterra, logo após o levante punk, no final da década de 70. A efervescência sonora propiciada pelo multiculturalismo - reggae, o dub e o ska gozaram de grande apreço entre os punks - dá a medida ritmica do movimento: timbres sombrios, texturas graves e experimentação com novidades tecnológicas do período, conferem hoje um valioso caráter low-fi a estes artistas. Entre seus expoentes, Joy Division, The Cure, Siouxsie and The Banshees, Depeche Mode, Hüsker Dü e até o Sonic Youth - sobretudo nos primórdios.
soam divertidas, mas com pouco fôlego, perante canções muito mais inspiradas do disco, caso de "Coalition", um ponto alto com sua linha de baixo proeminente e vocal convulso.
Mesmo "Cross to Bear", uma música inicialmente inofensiva com direito a cítaras e o vocal suave da cantora Hafnis Huld, tem a equação invertida e diz a que veio em sua segunda metade, levada por uma percussão eletrônica pesada e de efeitos. "Veronika", outro destaque, também investe na atmosfera grave e nos vocais de Veronika Coassolo em uma raivosa e nada óbvia canção de amor. "Bacative" e "Baligaga", levadas pelo ragga man Rodigan, têm DNA muito semelhante, embora de efeitos bem diferentes - a primeira, mais tristonha, conta com um arrepiante acorde de violino repetido desde a introdução, além de vocais femininos, enquanto a segunda aposta no sax e numa bateria soul acelerada.
"Puppy Toy", a primeira música do disco, é festiva, zombeteira e também triste. Seus acordes iniciais são dedilhados ao piano, retomados ao longo da canção, e acompanhados pela voz de Tricky a pronunciar, como numa constatação: "Again, we go 'round and round/(...) Friends, girls, they come and go ". Além disso, faz diferença nesta faixa a presença cintilante da cantora Alex Mills. Num registro que remete às divas radiofônicas da black music, ela canta "You think you're nice", para depois voltar com "Well you're an idiot". Nada mais irônico, nada mais acertado: situada entre uma tênue divisa, na qual de um lado o arranjo reporta-se a um nada insípido new jazz, com direito a uma sonoridade que traz referências de uma big band, e do outro o pop mais cafajeste. Como uma marcha de abertura, lembra ao ouvinte que temos aqui um compositor com apreço pelos arranjos, em camadas, bem elaborados e cuidadosos.
MÁSCARAS Feitas as contas, os momentos mais rockers do disco são também os mais fraquinhos, com uma grata exceção quase nos 45 do segundo tempo: a penúltima canção, "Far Away", poderia ser um glorioso final - não fosse a fraca balada de encerramento, "School Gates". Pense em Smashing Pumpkins - outra influência de Tricky, assumida na canção "Pumpkin", de seu disco Maxinquaye - tocando como se fosse o New Order - caso de "1979", presente no repertório da banda de Billy Corgan. Agora pense em Tricky tocando como se fosse Pumpkins tocando como se fosse New Order. O que poderia ser absolutamente derivativo surge inspirado e leve, e de quebra ainda dialoga com Sonic Youth - por sinal, outra banda egressa do pós-punk, manifestação cultural cara ao Tricky, este artífice do seu tempo. Como na capa do álbum, máscaras brincam de esconder o que bem sabemos encontrar por trás: um artista ambicioso, a nos legar suas inquietações.
E pra quem não está sabendo, a Turnê do Knowle West Boy nos EUA vai ter uma banda brazuca pro show de abertura.... é o Télépathique, que já apareceu por aqui no Blog do Camilo Rocha.... www.myspace.com/telepathique
Acho um exagero afirmar isso do Massive Attack mas vc tem razão sobre a importância da colaboração entre eles. Eu me refiro à carreira solo do Tricky e nem chega a ser uma crítica, eu nunca consegui pegar o bonde dele, só isso.
Eu me refiro à carreira solo do Tricky e nem chega a ser uma crítica, eu nunca consegui pegar o bonde dele, só isso.