Entrevista: Mary Anne Hobbs
Queen of underground
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Entrevista: Mary Anne Hobbs
O surgimento e os novos rumos do dubstep pela DJ/radialista que bombou o gênero em 2006
05.08.08 14:50
A rainha do underground não acumula esse título por menos. Coroada por mérito e reconhecimento, Mary Anne Hobbs é hoje uma das vozes mais ativas do gênero no mundo. Uma legião de fãs espalhados pelos quatro cantos do planeta acompanha a saga dessa verdadeira militante das sonoridades experimentais.

Cenas restritas aos guetos londrinos ganharam o mundo através do seu cultuado programa na BBC Radio 1. Foi assim com o Dubstep, gênero que estava pronto para eclodir em 2005 e foi levado à superfície através do especial Dubstep Warz, transmitido pela emissora britânica em janeiro de 2006.
live @ Sónar 2008
live @ Sónar 2008

Mary Anne Hobbs assina a curadoria de duas compilações. O álbum Warrior Dubz (Planet Mu, 2006) traz o drum'n'bass de Amit, o techno de Andy Stott e o UK garage de Burial. O recente Evangeline (Planet Mu, 2008) também cobre um panorama sonoro diversificado, com Surgeon, Claro Intelecto, Boxcutter e Flying Lotus. Em comum, ambos somos sinônimos de ousadia e música para romper fronteiras.

A seguir, confira o bate papo com Mary Anne Hobbs.

Como você encara os termos "underground" e "mainstream"? Esses conceitos são bem definidos para você?

Na BBC tenho total liberdade para tocar qualquer tipo de música. Por isso não entro em conflito com esses termos. Vejo o programa como uma plataforma global que descobre os artistas mais novos e corajosos do momento. É muito importante a forma que comunico isso para minha audiência. Quero que as pessoas se sintam acolhidas e incluídas, e o que faço é absolutamente acessível para qualquer pessoa que deseja mergulhar de cabeça ou apenas molhar as pontas dos dedos. Por isso cuido para que o contexto do programa seja especial. O programa atinge uma audiência muito ampla e para muitos pode ser uma novidade.

Como é o som "underground" hoje?

O interessante da música eletrônica é que ela muda e se move para frente em muitos pequenos passos todos os dias. A mídia só se atenta ao fato quando ocorre um "salto quântico", ou quando surge de um "novo gênero". Mas na verdade isso tudo é uma evolução gradual e não uma súbita ignição. No underground as barreiras que dividem os gêneros musicais entram em colapso e se dissolvem a cada dia. Veja, por exemplo, o sucesso de um artista como o Flying Lótus, que desafia completamente qualquer tipo de categorização.

Qual é a diferença entre o Warrior Dubz e o Evangeline? Como surgiu a idéia de fazer um segundo álbum compilação?

Queria fazer um segundo álbum porque achava que era o tempo certo para isso. Os sons evoluíram demais nesses últimos meses.

Cheguei ao Planet Mu com o título e o conceito. O termo "evangeline" é como a personificação feminina da palavra "evangelista", algo pelo qual sou conhecida, sou uma "pregadora" do som. Gosto dos detalhes sutis das produções de Ben Frost, Surgeon, Dakimh, Headhunter e Ekelon. Mais do que isso, gosto da maneira como a música flui pelo álbum todo, apesar da sua diversidade sonora.

Flash Content
Dakimh - Done (mp3)

Quando você contraiu o vírus do dubstep? Como você vê o gênero hoje?

A DMZ, meca do Dubstep, foi o ponto inicial mais relevante para mim em 2005. Depois houve o Dubstep Warz em 2006. A resposta foi completamente arrebatadora e persiste até hoje. Todo dia recebo mensagens do tipo "o Dubstep salvou minha vida!", são pessoas do Chile, da Groenlândia, de Israel, do Rio de Janeiro, do mundo todo. Foram mais de 20.000 acessos no tópico que o Distance colocou no Dubstep Forum em menos de cinco dias. Minhas caixas de e-mail simplesmente derreteram.

Fizemos o programa sem muitas expectativas. Tinha certeza de que os artistas envolvidos trariam sons que realmente seriam capazes de mudar a vida das pessoas. A gente não esperava uma resposta tão grande numa escala global. É o maior programa da minha carreira, em termos de impacto em corações e mentes. Foi um momento mágico. Se pudesse escolher um instante, seria quando o Loefah tocou "Mud". A faixa foi feita exclusivamente para o programa, ele ficou sem dormir para que a produção pudesse ficar pronta. Quando o Pokes disse "Loefah, joga essa", o mundo mudou naquela noite.

Flash Content
Loefah - Mud (mp3)

Meu próximo grande projeto é o Generation Bass, que será gravado nos estúdios da BBC e será transmitido dia 19 de agosto. Os curadores serão os próprios DJs do Dubstep Warz. O line-up será esse:

Mala escolheu Silkie e Quest
Skream escolheu Kulture
Kode 9 escolheu Joker e Nomad
Vex'd escolheu Starkey
Hatcha escolheu Chef
Loefah escolheu Oneman
Distance escolheu Cyrus
MC Sgt. Pokes

No dia dois de setembro também vou fazer um especial apresentando os novos artistas do selo do Kode 9, o Hyperdub: LV, Ikonika, Darkstar, Samiyam, Zombie e Quarta 330.

Você conhece os artistas experimentais da cena underground brasileira? Já visitou o Brasil?

Eu adoraria conhecer! Nunca estive no Brasil, mas é um sonho poder visitar algum dia. Imagino que seja o país mais exótico, mais lindo, mais vibrante e mais sensual do planeta!

Todos falam da sua beleza e as pessoas comentam sobre sua voz suave no rádio. Como você lida com isso? Você se considera uma mulher vaidosa?

Hahaha! Estou sempre trabalhando, meu programa é meu filho e ele precisa de constante cuidado e atenção. É a minha paixão e minha obscessão. Também trabalho duro para ser uma DJ. De vez em quando adoro pilotar motos velozes.

Bruno Belluomini
Bruno Belluomini