Em 2005, trio austaliano foi louvado como salvador e destruidor do d'n'b com suas guitarras

Hoje em dia é ponto pacífico citar a Oceania como ponto de referência relevante no mapa do pop. Mesmo sendo este
aggiornamento algo um tanto recente no cenário musical, ele aponta pra um fato inegável: não só há muito talento, como também há muita originalidade oriundos da longínquo Oceania. Porém, em que sentido essa originalidade é, de fato, concreta? Há um som tipicamente australiano ou caracteristicamente neozelandês? Em um gênero tão afeito a bairrismos como é o drum'n'bass - e sendo este, ironicamente, o reverso exato de sua tão celebrada versatilidade - é mais simples delinear essas fronteiras estéticas e chegar à conclusão de que aquela sonoridade de fato existe e é bem reconhecível.
Se o tempero brasileiro no gênero conquistou o paladar dos britânicos usando e abusando dos sabores bossentos e odores sambosos, tarefa semelhante foi levada a cabo pelos
aussies através do mais tradicional churrascão roqueiro. Fato é que o molho agradou, até mais do que o esperado. Entre os cortes vindos de down south que mais fizeram sucesso nas de Sua Majestade ao norte, contam-se nomes como os kiwis do Concord Dawn e do Upbeats, mas a carne nobre, sem dúvida, é formada pelo trio australiano conhecido como Pendulum e
Hold Your Color, indubitavelmente, seu cartão de visitas ao mundo.
GODSPEED OUT OF THE UNDERGROUNDRob, Paul e Gareth eram três amigos que moravam em
Perth e tinham sua bandinha de garagem, com a qual procuravam dar vazão a sua experiência mundana em uma forma artisticamente válida. Até aí, este é o cotidiano de toda molecada que se arrisca a viver o sonho do Rock'n'Roll. Contudo, na virada do seculo uma onda musical gigantesca atingiu a costa oeste australiana e não poupou ninguém na pequena
live @ Coachella 2007 (e em 27/set no Skol!)

cidade. De forma análoga a como havia ocorrido em outras metrópoles mais portentosas, o drum & bass varreu Perth e engolfou a criatividade de DJs e músicos, dada sua estrutura rítmica facilmente adaptável aos mais variados formatos e abordagens estéticas. Os três não apenas foram levados por esta onda, como também imergiram nela, profundamente. E o primeiro resultado desta submersão total foram "Vault", "Still Grey" e Back To You", três exemplos do nível de dedicação estilística e sofisticação técnica que se poderia esperar do trio dali em diante. Cada uma a seu modo ajudou a mudar o panorama do Drum & Bass quando lançadas, e o nome Pendulum projetou-se rapidamente entre as promessas de renovação em meio ao marasmo em que lentamente afundava o gênero. Apostando no talento que já havia dado muitos lucros a selos como 31 (de Doc Scott) e Timeless (de Brillo), os visionários Fresh e Adam F transformaram o trio no carro-chefe de seu já renomado imprint, Breakbeat Kaos.
Previsivelmente, "Another Planet/Voyager" seguiu direto para o topo das paradas independentes de dance music, já sendo um hit no pré-formato de dubplate, e foi apenas uma questão de tempo até confirmar as expectativas e tornar-se um dos singles mais vendidos da história do gênero; desbancando, no processo, clássicos já consagrados e recheados de latinidad como "Shake Your Body" (Shy FX & T-Power) e "LK" (Marky & XRS). Então, após uma trajetória aparentemente teleguiada para o sucesso, pode-se considerar "Hold Your Color" como um prenúncio do inevitável. Mesmo assim, ele é mais do que isso. Este é um álbum que pode ser considerado um divisor de águas em todas as acepções da expressão: seja para o melhor ou para o pior.
HOLD IT! LISTEN...Quando os primeiros singles começaram a circular em formatos restritos na mãos dos DJs, (faixas como "Slam", "Tarantula" e Fasten Your Seatbelt") o que se via era uma divisão entre um novo e um velho público do drum & bass. Tamanha a comoção que a abordagem inovadora destes aussies criou em meio à já tão conturbada "cena", que rótulos extremados como
salvadores e
assassinos do drum & bass foram fartamente utilizados. "Hold Your Color" é um álbum completo no sentido mais claro do termo. Seja por estas três faixas, que causaram danos imensos própria em pistas especializadas mundo afora, quanto por todas outras que o compunham, entre elas trabalhos dignos de nota como "Plasticworld" e "Girl In The Fire". E isto não é um feito pequeno, ainda mais louvável se levarmos em conta o esforço de crossover envolvido.
Porém, voltando ao assunto inicial, ainda permanece uma pergunta: como poderíamos definir esta sonoridade específica, que acabou por se tornar uma referência tanto nos guetos obscuros do cenário em que se originou, quanto na estratosfera do mainstream a qual chegou a atingir? Limitar geograficamente nem é minha intenção aqui, muito menos rotular, mas é inevitável notar que a nata da abordagem roqueira
Rob Swire

do drum & bass vem daqueles territórios de marsupiais exóticos.
Para além de considerações a respeito de se a contribuição do Pendulum é positiva ou negativa, vale notar que ela é uma decorrência natural das mutações sofridas pelo gênero no decorrer das inúmeras transições que sofreu ao entrar e sair do radar midiático. Muito dela é fruto das contribuições de gente como Alex Reece e sua introdução hegemônica do 2-Step, ou mesmo os pioneiros Ed Rush & Optical quando ajudaram a acelerar os BPMs e "retificar" o groove através de bases cada vez mais puxadas do punk e do pós-punk. O que importa é ressaltar o mérito que têm Gareth, Rob e Paul em levar isto até o extremo, criando e alterando uma fómula até suas últimas conseqüências, doa a quem doer. A partir do momento em que entendemos isto e damos uma sincera chance a este magnífico álbum de uma audição honesta, até a típica expressão que lhe dá nome fica mais cheia de sentido. O Pendulum é um dos headliners do Skol Beats 2008, que acontece dia 27/set em São Paulo. Antes do festival ainda falaremos do mais recente disco do trio,
In Silico, aguarde.