É fácil gostar do novo disco de Brian Eno e David Byrne - e isso pode ser um problema...
Expectativa é uma merda. Você fica sabendo que
Brian Eno e
David Byrne vão lançar
mais um álbum juntos (o que já haviam feito em 1981, com
My Life in the Bush of Ghosts) e já se empolga. Aí lê que eles mesmos definem a sonoridade do disco como gospel-folk-eletrônico e fica imaginando aqueles coros gospel arrebatadores acompanhados pelas maluquices eletrônicas da dupla. Então chega o dia do lançamento, você
entra no site (mais uma razão para ficar contente: as faixas estão todas de graça para streamming), ouve e pensa: "É só isso?"

Sabe quando um casal lindíssimo, tipo Angelina Jolie e Brad Pitt, tem um filho completamente sem graça? É assim com
Everything That Happens Will Happen Today, o segundo "filho" de Eno e Byrne. O primogênito de 81 era um álbum difícil, daqueles que o ouvinte chega ao fim exausto (se é que consegue chegar até o fim, já que são 18 faixas), mas havia ali uma ousadia, uma vontade de experimentar. Já no novo rebento o risco é quase zero, resultando em um disco tão fácil de se gostar que chega a ser sem graça. As sequências de acordes são batidas, dando aquela sensação confortável de se estar ouvindo algo já conhecido. Mas poxa... se eu quero música sem originalidade vou comprar o disco novo do
Coldplay e não o do Eno e Byrne - se bem que o produtor do último trabalho do Coldplay foi o Brian Eno... será que Chris Martin andou influenciando o compositor de "Needle in the Camel's Eye"?
Mas Byrne também escorrega na falta de criatividade. Em vez da entonação quase debochada que usava no
Talking Heads e que é sua marca característica, em
Everything that happens... ele parece querer mostrar que é um grande cantor. Até que não seria uma idéia ruim, se as melodias que ele compôs também não fossem batidas e se em algumas faixas, como "Life is long" e "One fine day", ele não soasse exatamente como
Tom Petty. Letras que não rimassem "love" com "above" e "school" com "cool" também melhorariam a situação.
No entanto, o disco tem alguns momentos de rebeldia. Em "I Feel my Stuff" e "Poor Boy" os artistas enveredam por climas menos solares, batidas quebradas e linhas vocais não-assobiáveis. "Strange Overtones" tem um groove irresistível acentuado por instrumentos de percussão, mas David Byrne abusa do falsete. Já "Wanted for life" é totalmente irrepreensível, com pegada Talking Heads, uns efeitos esquisitos e coral gospel: exatamente aquilo que se esperava de
Everything That Happens Will Happen Today.
Quer dizer então que o restante do álbum é ruim? Não. É muito bom, bonito até - a faixa título, por exemplo, é lindíssima. Só que se trata de uma beleza que conforta o ouvinte em vez de desafiá-lo.
agora com menos expectativas já, thx
mas gospel-folk-eletrônico parece ser tudo mesmo