Nata do trance piscodélico se reúne em Portugal.
Entre 11 e 18/ago ocorreu em Portugal a 7º edição do Boom Festival, maior evento da agenda de cultura psicodélica mundial.
A meca do psytrance reuniu artistas e colaboradores de todos os continentes trazendo cinema, teatro, circo, culinária internacional, exibições, terapias, moda e muita música marcando os 7 dias do evento que teve público recorde e chegou pela primeira vez em sua lotação máxima, 25 mil pessoas de 57 nacionalidades diferentes.
O PRÉ-BOOM
Logo ao chegar na pequena cidade de Idanh-a-Nova podíamos sentir o peso da internacionalidade do evento, carros e caminhões se abasteciam nos mercados, na estação neo-hippies vindos de diversos lugares do mundo desembarcavam em cada novo trem e ônibus. Há alguns metros da entrada um pré estacionamento foi feito para facilitar o trânsito de carros oficiais(na edição de 2006 uma enorme fila se formou 2 dias antes do evento bloqueando a estrada de acesso).
Caravanas, camping vans, pequenos caminhões e até ônibus equipados com sala, cozinha e banheiro. A cultura de viajar com esse tipo de veículo está em todos os países da Europa, mas na França é um must-have traveler accessory e pela proximidade entre os países era fácil de entender porque o pré parking estava dominado por franceses.
Na noite do dia 10 aconteceram pequenas festas de soundsystems independentes, já haviam também bares montados pelo próprio público onde se encontrava cerveja e água gelada.
Às 9 horas da manhã do dia 11 os portões foram abertos, e mesmo com o Pré Parking, criou-se 9 km de fila na estrada, durante todo o dia boomers foram chegando e pouco a pouco ocupando a cidade que todos nós viveriamos pelos próximos 7 dias.
CARAVAN PARKINGLocalizado há 1 km do main stage e com uma vida independente o espaço reservado para caminhões e camping vans era um espetáculo a parte, boomers montavam chill outs, chai shops(espaços de chá indiano tipico de festivais), tendas de comida, bares e todas as noites soundsystems espalhados pelo estacionamento faziam festas. O anúncio da proibição de animais no evento não foi o bastante para mudar o modo como as pessoas vivem festivais pela Europa e muitos trouxeram seus cachorros.
Mais uma vez o quesito banho foi deixado de lado e só havia um ponto de chuveiros no festival, para os moradores da caravan parking e campings ao redor a cada banho uma caminhada de 1,5 km, mas isso definitivamente não é um problema quando se fala de hippies na Europa, o assunto geralmente era mais abordado por brasileiros, nesse ponto a cena européia se difere da brasileira, de certa forma nós temos esse contato direto com produtores através dos forums e sempre policiamos falhas e preços abusivos em nossas festas.
Por todos os lados sorrisos, pessoas que estavam ali pela primeira vez em meio a rostos conhecidos de outras épocas, amigos que correm o mundo atrás de festivais, former boomers que participaram de todas as outras edições.
DANCE FLOOR
Às 17:00 do dia 12 o tão aguardado main stage teve sua cerimônia de abertura e a partir daquele momento seriam 5 dias com artistas do mundo todo revezando no palco.
As noites frias(inesperado já que em 2006 fazia calor mesmo nas horas mais altas da madrugada) com o ambiente sempre muito colorido preenchido por projeções visuais, neons, lasers e decoração impressionante. Madrugada a dentro grandes nomes do dark trance davam as caras e faziam com que o stage borbulhasse em ecstasy através de bass lines pesados e dinâmicos, ao amanhecer full on music e quanto mais o sol esquentava o dance floor da cidade psicodélica se enchia de progressive, funk e groove beats em geral.
Elaborado pelo crew brasileiro Sagaz o main stage comportava 20 mil pessoas, caixas de som distribuídas em quatro pontos e com um sistema de irrigação espalhado por todos os cantos refrescava o forte calor do sol de verão, em alguns pontos havia lama debaixo do que pareciam ser chuveiros(e isso é o mais tradicional que se pode quando se fala de festa trance) onde pés sujos e dread locks molhados faziam a festa, em outros pontos do mesmo stage a poeira subia a medida que criaturas psicodélicas rodopiavam e batiam o pé descalço no chão. Todos os elementos funcionando juntos para um público profissional em diversão psicodélica.
Aqueles que estavam ali dançavam em perfeita sintonia com os artistas, timbres potentes e nítidos explodiam dos grandes P.A's de som hipnotizando a todos e desencadeando um transe coletivo através de dança free-style com movimentos que usavam todos os membros do corpo. Essas mesmas pessoas completavam a decoração, muito couro, roupas rasgadas, dread locks, tons de terra e todo o exotismo neo-hippie.
Destaque para Beduim and Hamish duo britânico que em um mesmo set mesclaram tracks de full on groove e funky beats da progressive music de uma forma tão espetacular nunca vista antes, Ocelot(USA) abriu uma madrugada com spaced beats que ao contrário da dark music traz uma atmosfera ritmada e pesada ao mesmo tempo, Burn In Noise(BR) se apresentou durante a última tarde e trouxe um live act bem fiel ao seu estilo único de full on trance agradando muito a pista naqueles que eram os últimos momentos de uma semana cheia de grandes apresentações. Fechando com chave de ouro Psynema(Alemanha) coletivo que mistura circo, dança, projeções e dark psychedelic trance fez um live act tão completo e inesperado que deixou o público em dúvida se dançava ou assistia congelados aquela última e grande apresentação. No momento que a última track do dance floor acabou, me sentei no chão e tentei entender o que foi aquilo que acabara de acontecer, uma experiência audiovisual extremamente psicodélica.
Todos os dias a partir das 17:00 havia uma pausa no palco principal de 3 horas para aqueles que estavam por lá desde a noite anterior pudessem descansar e também aproveitar outras atrações.
GROOVE BEACHA beira da represa e abrindo espaço para outras vertentes da música eletrônica podia se ouvir Dubstep, Electro, Minimal, Tech-house, Techno, House, Breakbeats. Funky, Reggae, Hip Hop e Experimental Music e apesar de ser o ponto oficial para aqueles que queriam continuar a dançar durante os intervalos do main stage a Groove Beach Arena trouxe grandes nomes em diversos momentos. Far Too Loud(UK) fez uma apresentação inesquecível com beats gordos e redondos típicos do breakbeat londrino, outra grande atração muito esperada foi o Extrawelt(Cocoon Rec) duo de Hamburgo que trouxe ótimas tracks de house, techno e spaced music.
Groove Beach
AMBIENT FORESTFalar em Chill Out talvez não seja o único ponto desse espaço já que haviam muitos chill outs espalhados pelo festival, com um line-up voltado para beats mais calmos era ao por-do-sol o ponto de encontro dos malabaris. Sentar-se para descansar um pouco e recarregar as energias era uma ótima desculpa para fazer novos amigos.
performance na Ambient Forest
SACRED FIREEspaço voltado para world music cercado por restaurantes, jardins, instalações interativas e uma área de terapia chamada Sacred Healing onde diversos massagistas estavam à disposição através de doações.
Foi ali às 6 horas da manhã da segunda-feira 18 onde foi tocada a última música do festival.
Pedra Branca (Brasil) @ Sacred Fire
A Healing Area, outro espaço de terapias com diversos especialistas do mundo todo fazendo seções de meditação, yoga e outras atividades que trabalhavam o corpo e a mente.
LIMINAL VILLAGEEspaço cultural onde workshops de diversos temas entre Artes, Biodinâmica, Yoga, Kung-Fu, Biodiversidade, Sustentabilidade e Permacultura aconteceram.
Martina Hofmann, artista plástica e filha do pai do LSD fez um discussão sobre a Arte Terapia e ícones femininos da antiguidade, no mesmo espaço foi exibido o Paradigms Film Festival com filmes alternativos entre eles Post Modern Times de João Amorim e Nikos Katscomis em parceria com a Curious Pictures, um grande jardim de permacultura foi cultivado e se podia checar informações técnicas sobre a biodiversidade presente. A Vision Gallery, uma galeria de arte psicodélica exibia peças de diversos artistas plásticos.
Um grande Teatro ao ar livre foi montado e diversas trupes se apresentaram durante o evento. O coletivo de artistas circences
Crème de la Crème foi uma das atrações.
Com uma programação tão eclética o clima não podia ser mais intimo, crianças, bebes, mulheres grávidas e famílias inteiras circulavam pelos diversos chai shops, bares flutuantes e praias à beira da represa.
vibrações positivas no Liminal Village
Havia também o Babyboom, um espaço de recreação para os pequenos com diversas atividades.
Nessa edição o Boom contou também com ajuda de ongs voltadas para o consumo consciente de drogas, representantes do
site Erowid junto a uma ong espanhola trouxeram folhetos e discussões sobre doenças sexualmente transmissíveis, além de panfletos sobre o consumo consciente de substâncias faziam testes com drogas que o público trazia pára analisar os componentes presentes.
Em uma conversa com um voluntário descobrimos que a maioria das drogas testadas no evento eram de boa qualidade com algumas alterações em MDMA, Cocaína, Speedy e Ketamina que possuíam misturas como Cafeína, Paracetamol e até açúcar.
Ao lado dessa tenda havia um espaço com psicólogos a disposição daqueles que estivessem em bad trips.
Expositores do mundo todo formavam o Flea Market com roupas e acessórios, um hospital, telefones públicos, internet café, área com free wireless internet, mercado de comidas e frutas, mini farmácia, Boom Radio que transmitia programas e notícias sobre o festival com um alcance de 5 km e há coisas que só no Boom Festival podem ser vistas como alguém sentado no meio do dancefloor lendo jornal, o Daily Dragon, impresso e distribuído diariamente trazia destaques da programação, entrevistas e depoimentos.
Pela primeira vez na história do festival uma vida foi perdida, à caminho do hospital da cidade um francês de 38 anos morreu de ataque cardíaco, nesse dia um representante da organização veio ao palco principal comunicar o fato e um luto de 15 minutos foi proposto em todo o festival.
SUSTENTABILIDADEAtento aos impactos inevitáveis que um evento desse porte causa à natureza(motivo que mudou a frequência do festival anual para bienal) em parceria com o brasileiro Ecocentro IPEC(ipec.org) foi desenvolvido uma tecnologia de compostagem do lixo orgânico re-utilizando para adubos em campos de cultivo portugueses e em parceria com o governo local todos os geradores do Boom funcionaram a base de óleo vegetal usado. Muitos jardins foram criados para tentar ao máximo chegar há um festival carbon-free.
Apesar disso ao final do evento as áreas de camping eram a prova de que muitos ali não absorveram nada do que estava sendo passado e muito lixo foi deixado para trás.
ANTI-BOOM
Sem controle da polícia e totalmente underground, logo ali do outro lado da represa techno-heads, punks e freaks faziam um free technival em protesto aos preços ditos abusivos do Boom Festival, ao moldes da velha rixa psytrance x techno, que diferente do Brasil aparece muito forte em países como França e Inglaterra, com duração de 10 dias ao som de hard tech e drum n bass essa festa é tão tradicional para os techno-heads como o próprio Boom Festival para os boomers e no momento que a música parou do nosso lado da represa podia se ouvir nitidamente o soundsystem do Antiboom.
Infelizmente esse ano o corpo de um inglês que estava no Antiboom apareceu boiando na manhã do dia 11.
O Boom Festival com toda sua complexidade e consistência foi realmente um evento único, intercultural e completamente internacional. Como que num piscar de olhos o festival acabou, após 7 dias vivendo essa experiência, com todas as roupas sujas de poeira e a alma lavada.
Em alguns dias estaríamos todos de volta às nossas realidades, parecia hora de colocar o relógio que estava guardado e começar a pensar naquele banho quente e cama do hotel, relembrar os momentos através das fotos e ter certeza que não se perdeu aquele papelzinho com e-mails e facebooks dos novos amigos.
Para nós, festival hunters, o próximo grande destino será o Universo Paralello na Bahia em dezembro, para os aussies uma parada no tradicional Rainbow Serpentine que acontece em Janeiro na Australia e em julho de 2009 o tão aguardado Festival do Soulclipse no Japão.
Com um sorriso de satisfação, um último adeus aos amigos que moram tão distantes de mim e aquela velha frase que funciona tão bem nessas ocasiões, amo todos vocês e nos vemos no dance floor!
Confira fotos do festival em
nossa GALERIA!