
Certa vez, o célebre escritor tcheco
Franz Kafka, anotou em seu diário: "De um certo ponto adiante não há mais retorno. Este é o ponto a ser alcançado." Aparente antípoda ao estilo sombrio e claustrofóbico do autor, os músicos do AIR muito contribuíram para trazer à música pop eletrônica um outro nível de entendimento e possibilidades de apreciação.
Seu disco de estréia (
sem contar o EP Premiers Symptômes),
Moon Safari, lançado em 1998, distribui ao longo de suas dez canções, delicados toques ácidos de vocais, pianos e synths. Nem easylistening, nem pós-shoegazzer, nem house, nem synthpop, as modulações rítmicas das músicas transitam por uma zona nebulosa, capaz de desafiar qualquer categorização apressada.
Com vocais e notas adulteradas, situados em algum lugar entre o presente e o passado, uma possível síntese do disco um nada edulcorado retrato daquela época encontra-se em sua constante ironia e distorção. Tal a tinta aquarelada presente na arte do encarte, a sonoridade de Moon Safari é fluída e interessada nas imprecisões. Sua leveza é a mesma de uma densa gota de cor no papel.
PAISAGENS ONÍRICAS
Surgidos meses depois de um dos discos mais aclamados da história da música pop,
Ok Computer (Radiohead), a musicalidade de
Moon Safari faz jus ao nome que a banda traz, uma sigla para Amor, Imaginação e Sonho, em francês. Tributários ao estilo pátrio de amar e cantar o amor, a dupla recupera, em meio inclusive à guitarras acústicas como a que abre "Ce Matin La", uma certa atmosfera propícia à recordação dos momentos mais sublimes da
Nouvelle Vague, movimento cinematográfico local responsável por difundir um universo de sensualidade, mistério e desencanto moral, tudo junto, tudo ruindo, identificado até hoje com os modos e costumes francófilos. Em meio a vozes infantis fundidas no fundo da referida canção, os versos românticos surgem repetitivos e tolos, buscam mesmo um não-sentido, uma não-preocupação com o que se tem a dizer. Juras de amor, todos sabem, são iguais e se repetem por aí aos montes. A mesma canção traz em si a potência do amor, mas também a da indiferença no instante seguinte.
No clip de "Sexy Boy", hit absoluto do duo, a representação do desejo corresponde a um fofo macaquinho de pelúcia. É com um olhar detido na impermeabilidade dos relacionamentos que a banda lança suas abstrações boa parte das músicas do disco são instrumentais e reiteram uma recorrente sensação de solidão e vazio, característica rapidamente percebido por Sofia Coppola, cineasta identificada com o som do duo, tendo encomendado a eles a trilha do seu primeiro longa,
As Virgens Suicídas, de 1999.
Com canções pontuadas por mudanças rítmicas sutis caso da faixa de abertura, "La Femme D'argent", e também da sinfônica "Talisman", além de texturas que apostam na linearidade da composição, em um álbum produzido pela própria dupla, cabe lembrar, o disco alterna momentos com outras curiosamente responsáveis por ressaltarem, em si mesmas sua própria opacidade, procedimento adotado nas repetitivas "Remember" e "Kelly, Watch the Stars", que
no seu video, por sinal, surge com arranjo diferenciado.
A estréia conta ainda com a participação da compositora Beth Hirsch nas faixas, "You Make it Easy" e "All I Need", em interpretações comedidas e distanciadas. Embora de timbre incorpado, sua voz surge amalgamada em arranjos etéreos e esvanecentes. Posteriormente, as participações vocais se tornariam mais escassas na discografia da banda, ainda que em
10 000 Hz Legend (2001) o astro Beck tenha dado uma forcinha, além do ex-Pulp Jarvis Cocker e de Neil Hannon, do The Divine Comedy, ambos presente em
Pocket Symphony (2007), o trabalho mais recente do duo.
FINAL PODEROSOA faixa de encerramento, "Le Voyage de Penelope", termina a expedição lunática como uma boa recapitulação das paisagens visitadas: curta e enxuta, porém decisivamente incisiva em sua porção rítmica, sua leveza é só aparente e paira no ar um tom reflexivo final, percorrido com desigual desenvoltura nos trabalhos seguintes da banda. Num momento de auto-congratulações escapistas revestidas de aura retrô, o duo AIR arriscou, em
Moon Safari desvendar o artifício empunhando as mesmas representações, isto é, partindo de um repertório sonoro reconhecível, dos mesmos temas futuristas, além do minimalismo aqui, no entanto, em sinais contrafeitos, figurados em escalas diferentes. O resultado, persiste hoje.
Moon Safari ganha site e edição comemorativa
Para comemorar os dez anos de lançamento, foi lançada uma edição comemorativa com três discos: um com a versão integral do álbum, o segundo com remixes, performances ao vivo e versões demos uma delas, curiosamente intitulada Bossa 96 , e o terceiro com clips e videodocumentário de uma hora de duração o trailler promete algo bem estiloso. Já o site especial que a banda colocou no ar tem um belo design, em que, além de colorir o fundo da imagem com o cursor, o internauta é convidada a contar suas histórias vividas ao som do álbum. O endereço você encontra aqui.
Mas inda prefiro o primeiro, Les Profissionnels e Casanova 70 são as melhores... parabéns pela resenha!