
Se você não gosta de ABBA, nem de musicais, pare por aqui. Essa resenha é uma cereja no bolo do máximo que o pop pode alcançar, e volta e meia nos permitimos tal ousadia. O assunto agora é
Mamma Mia!, filme musical inspirado na peça da Broadway de mesmo nome (e mesmo sucesso), que foi produzido pelos chefões da banda sueca, os ex-integrantes Benny Andersson e Björn Ulvaeus (produtores executivos do filme ao lado de Tom Hanks).
Para nós que falamos tanto da Suécia e sua potencialidade musical, não dava para deixar passar mais esse capítulo da
ABBA culture. Protagonizado por Meryl Streep, Pierce Brosnan e a jovem Amanda Seyfried, o musical não é sobre o ABBA, apenas inspirado pelas canções da banda. A história se passa numa ilha grega, em que Donna, mãe solteira e responsável por um hotel velho, prepara o casamento da filha. A jovem, que não conhece o pai, convida os três suspeitos da paternidade após mexer no diário antigo da mãe. Na semana do casamento, um americano, um inglês e um sueco aparecem e revivem o passado, mexendo com os brios, lembranças e expectativas de todos: da mãe (Donna, interpretada por Meryl Streep), do casal, das tias solteironas e até dos figurantes gregos, que no filme são "músicos-escadas" para os números.
IT'S TIME TO FIND MR. RIGHT!É inegável a comparação com o inesquecível
O Casamento de Muriel, em que o sonho casamenteiro também é o mote. Só que enquanto para Muriel o ABBA é apenas a musicalidade da sua alma sonhadora, no
Mamma Mia! as canções do grupo são parte do roteiro. "Money, Money, Money" narra as angústias de Donna e seu hotel velho, enquanto ela sonha ser rica; "Take a Chance on Me" é a insistência da tiazona velha para fisgar um homem; e "I do, I do, I do, I do, I do", óbvio, caiu como uma luva a caminho do altar, tanto para Muriel quanto para Sophie (a filha de Donna).
Mamma Mia! é colorido e histriônico, uma alegria exuberante a cada encontro, a cada conversa e sensação. Praias gregas, suecos, navios, boa comida, tias animadas, praia com corpos torneados, uma grande e exagerada idealização que tira um pouco a verossimilhança da vida - isso é de menos, musicais são sempre apoteóticos e exagerados. Mas tanta alegria incomoda um pouco, principalmente no começo do filme, quando o olhar ainda não se acostuma. É muito menos interessante do que a decadência kitsch (e pop) de Muriel. Compare em vídeo.
O Casamento de Muriel / Dancing QueenMamma Mia! / Super Trouper Os diálogos que viram canções em fade in/out mostram como a simplicidade das letras do ABBA são 80% de seu sucesso: rimas fáceis, refrões pegajosos, temas do coração e da vida acessíveis a todos. Meryl lavando roupa suja e cantando "The Winner Takes it All", onde admite que errou, é um bom exemplo. A atriz, unanimidade da cultura americana, é boa cantora e já havia mostrado seus dotes recentemente no último (e ótimo) filme de Robert Altman,
A Última Noite, um retrato musical da cultura country do rádio americano. Meryl atuou ao lado de Lindsay Lohan e Lily Tomlin, esta última sensacional atriz - em
Mamma Mia! há uma equivalente, a tia Tanya, perua interpretada por Christine Baranski, melhor cantora e talvez a melhor coadjuvante no filme.
TUDO MUITO LINDOVoa Meryl, voa!

Ainda sobre as interpretações: Pierce Brosnan como cantor é um fiasco. A voz forçada, uma taquara rachada disfarçada pelo grave da idade. E muita gente criticou Richard Gere por seu papel em
Chicago, musical este que ressuscitou a relevância dos musicais em Hollywood nos últimos anos.
Chicago é o oposto de
Mamma Mia!, não só pelo apelo fácil de temas como jazz, gângsters e afins, mas pela imprevisibilidade musical e das ótimas atuações. Assim como o ABBA, o musical da banda é correto e polido demais, chegando a ser óbvio em alguns momentos. Se não fosse a narrativa natural de
turning points do cinema (aqui bem delineadas e turbinadas pelas letras da banda como diálogos), o filme seria maçante.
Mas quem gosta de musicais vai gostar de vários momentos, como na cena da festa em que toda a questão da paternidade começa a se desenrolar de forma tensa ao som de "Voulez-Vous", essa sem dúvida a canção mais empolgante do ABBA. O final em que claro, (isso não é um
spoiler, apenas óbvio), tudo se resolve para a alegria geral, faz um bom uso da estética do bis de musicais e é divertido. Mostra que até o elenco deve ter se divertido pencas, Meryl principalmente. Quem não se divertiria? Sol, gente lôra, uma ilha grega e dezenas de canções do ABBA? Aposto que qualquer mortal.
E Jade, ainda bem que vc avisou que é musical pq brasileiro adora criticar esse gênero de filme dizendo "até que foi legal mas tinha muita cantoria", rsrs.